Origem e história

Não existem conclusões definitivas sobre o topónimo Drave. Existem, porém, várias referências a palavras próximas do termo Drave como por exemplo Drava, Dravus, Dravo, Drauss, Drab. Todas estas palavras são nomes de rios; são palavras que resultam da associação de nomes de plantas e animais subquáticos. Apesar do nome Drave ser pouco frequente, existem alguns rios europeus, todos afluentes do Danúbio, com esse nome. Existem ainda nomes de pessoas como Dravinius e Dravius, derivado do gaulês Dravos. Mas como aparece Drave?

Uma das hipóteses mais relevantes é a de que essa região foi povoada desde os tempos mais remotos. Prova disso é o aparecimento de vários testemunhos arqueológicos, como cistas e castros, salientando-se o aparecimento de uma pulseira em ouro de origem celta encontradas nas proximidades de Drave, em Regoufe. O que teria atraído povos para locais tão recônditos quanto estes, seria provavelmente a existência de vários cursos de água e a fertilidade dos terrenos que permitiam a subsistência dos seus povos. Outra explicação possível para o aparecimento do lugar da Drave tem a ver com o seu evidente isolamento. Diz-se que a Drave surgiu como um refúgio à criminalidade, isto é, as pessoas que cometiam certos crimes ali se refugiavam num lugar suficientemente isolado e escondido. Mas tudo não passa de suposições. O mais antigo documento onde se encontra uma referência à Drave é a Inquirição dos Reguengos da Beira, nos tempos de D. Dinis (1279 – 1325).

O Quotidiano nos tempos antigos

Na Drave, os dias eram passados, com raras exceções, sempre do mesmo modo. Logo que raiava o sol, o silêncio era quebrado um ranger de portas e pelos passos vagarosos de quem se dirigia para os currais. Seria a hora de alimentar o gado para de seguida o encaminhar para o alto do monte. 

Seguiam depois para a lavoura: trabalhar as terras acarreta atenções e serviços específicos conforme a época do ano em que se encontravam. Lavra-se, estruma-se, semeia-se, rega-se num sucedâneo ininterrupto de tarefas cuja repetição pelas várias gerações de habitantes da aldeia da Drave se encarregou de aperfeiçoar. 

Nos dias em que na Drave viviam os seus últimos habitantes, a realização de tantas lidas só efetuada com a ajuda dos filhos da Drave que moravam nas suas redondezas.

As refeições, confecionadas muitas vezes em hora tardia, eram saboreadas por todos. Após as refeições, era dedicado algum tempo ao descanso.

Aproveitavam para aí conversar sobre os acontecimentos correntes, para observar as vacas da varanda ou, simplesmente, reclinavam-se a recuperar forças para a jorna. Se alguma coisa faltava, necessário era ir à localidade mais próxima pedir favor ao merceeiro local ou então, nos tempos mais modernos, chamar um táxi.

Ao fim da tarde, quando a penumbra ameaçava cobrir com o seu manto escuro a montanha, não estando o gado de regresso à aldeia, necessário era subir ao monte para o recolher. Tarefa perigosa era esta: apesar dos lobos não atacarem normalmente os humanos, constituíam sempre uma ameaça. Porém, ainda mais perigoso seria um encontro com um javali enraivecido pela invasão do seu território.

De vez em quando, leva-se a vaca à aldeia vizinha de Silveiras para o touro a cobrir.

Outras vezes, coze-se o pão. O pão fazia parte integrante da alimentação da população daDrave. Era feito artesanalmente. Na sua confeção, utilizava-se farinha de milho moída no moinho da aldeia. A esta farinha de milho, juntava-se uma pequena quantidade de farinha de centeio para ela se ligar melhor. O fermento era um bocado de massa remanescente da cozida anterior e que se deixava azedar. A farinha era posta numa masseira e no centro desta fazia-se uma pequena cavidade onde se deitava sal, um dos bens mais preciosos por estas bandas. Juntava-se-lhe água, pouco a pouco, mexendo sempre com uma grande espátula da madeira. Depois de se misturar o fermento na massa, davam-se-lhe as voltas necessárias para que a ela se “ligasse bem”. Tiravam-se bocados de massa com dimensão muito reduzida que se iam colocando de parte em outra masseira. Depois de se ter passado toda a massa para o lado oposto, repetia-se a operação, passando de novo para o lado onde esteve anteriormente. Esta operação era repetida três vezes.

Moinho na Drave

No final da 3.ª vez, aconchegava-se muito bem a masseira, polvilhava-se com farinha e fazia-se uma cruz na massa. Sobre esta cruz, faziam-se, simbolicamente, mais cruzes com a mão enquanto se rezava o Pai-Nosso. “Pronto, agora estás com Deus” dizia a cozinheira, portadora dos hábitos ancestrais que sua mãe lhe transmitira, que por sua vez havia sido ensinada por sua mãe e por aí fora. No centro da cruz eram colocados três pedacinhos de pau de loureiro ou uma cebola, pois diz-se que, assim, leveda melhor. Fechava-se a tampa da masseira e deixa-se levedar pelo menos duas horas. Quando já cresceu o suficiente, põe-se lenha no forno e faz-se uma pequena fogueira. Colocavam-se bocados de massa dentro de uma bacia/alguidar e moldava-se uma grande bola que será a broa, a qual se mete dentro do forno com ajuda de uma pá. A porta do forno é fechada e vedada com bosta de vaca para que o ar não entre. Ao fim de algum tempo, o oxigénio dentro do forno sucumbe à chama e esta apaga-se. É o calor do forno que coze o pão, processo que demora cerca de 3 horas.

Na Drave, cultivava-se milho, feijão, centeio, batata, hortícolas, videiras e ferras para os animais. Maior parte da produção, particularmente nos últimos tempos em que a aldeia esteve habitada, destinava-se ao auto-consumo familiar pois o isolamento dificultava o escoamento dos produtos para as feiras: “já não dá para a sola dos sapatos e também já estamos velhos, não podemos” dizia o Sr. Joaquim, o último habitante da aldeia.

O centeio e o milho destinavam-se ao fabrico do pão; o folhedo e a palha do centeio servias para a alimentação e cama das vacas. O feijão, batata, hortícolas e os vinhos eram consumidos em casa. O leite era para os vitelos e as forragens para os animais.

Na Drave praticava-se pois policultura para consumo familiar. Porém o cultivável em maior escala era o milho e o centeio. O cultivo do milho passava por várias fases: a sementeira iniciava-se em abril e fazia-se a lanço. Faziam-se depois as sachas e as arrendas que consistiam em juntar terra aos pés do milho ao mesmo tempo que se iam eliminando as ervas daninhas. Eram trabalhos duros que exigiam muita mão de obra. Seguiam-se as mondas, arrancavam-se as plantas impeditivas do crescimento devidamente espaçado do milho. Quando o milho se encontrava quase na sua plenitude, cortava-se-lhe a bandeira que seria dada em verde às vacas ou posta a secar para lhes dar no inverno. Em setembro, quando o milho estava maduro, cortavam-se as espigas que eram transportadas em carros de bois para serem guardadas nos palheiros e, mais tarde, serem feitas as desfolhadas. As espigas desfolhadas eram postas a secar na eira e depois iam para os espigueiros de onde só eram tiradas conforme as necessidades de consumo.

O folhedo era guardado nos palheiros para depois dar aos animais. As canas eram cortadas à foicinha e transportadas à cabeça até aos palheiros onde se guardavam para mais tarde utilizar na cama e na alimentação dos animais durante o rigoroso inverno. A debulha era feita à mão: espalhava-se o milho na eira e batia-se-lhe como mangual, um pau comprido com uma tira de madeira na ponta denominada pitolo. O milho era moído no moinho da família quando o rio tinha água. Durante o verão, quando rio secava, era necessário moer o milho em aldeia vizinha. O carolo e os casulos serviam para queimar na lareira. O feijão, que era semeada junto do milho, era colhido à medida que ia amadurecendo.

O centeio adaptou-se bem às terras xistosas da Drave. Era, também ele, semeado a lanço, ceifado à foicinha, atado em molhos, seco em medas e debulhado à mão. Destinava-se a misturar ao milho, no fabrico da broa e à sementeira de ferra. A palha era arrumada nos currais para alimento dos animais.

Em setembro / outubro semeava-se a ferra. Era semeada a lanço nos regos do milho. Durante todo o inverno, a maior parte dos campos eram ocupados com as forragens para os animais. A vinha era também muito importante; havia mesmo quem afirmasse que o cartão de visita da Drave é o seu vinho. As vinhas encontravam-se colocadas em ramada, mas também as havia trepando as árvores. As videiras tintas são bem mais numerosas que as congéneres brancas, por tal só se fazia o dito vinho “americano”. As vindimas faziam-se em finais de setembro /outubro. Era difícil e perigoso o corte dos cachos das uvas por estes se encontrarem nos lugares mais impensáveis: trepando pelas árvores, por cima do rio, etc. Depois de apanhadas, as uvas eram colocadas no lagar e pisadas com os pés.

Alguns dos Martins dedicavam-se à apicultura. Tinham vários cortiços, uns cobertos com tampos de lousa, outros com toldos de madeira e instalados nas encostas protegidos pelos rochedos. A produção de mel destinava-se fundamentalmente ao consumo doméstico. Quando havia incêndios, o ano era mau visto as abelhas se verem provadas da sua fonte de alimentação: flor do eucalipto, da do tojo e do castanheiro.

Fonte: “Antropologia e Realidade Portuguesa. Drave: um passado sem futuro?” de Claúdia C. Silva, Eugénia C. Almeida, Maria Júlia Morais e Maria Madalena Soares, 1989